Publicado em 15/09/2014 por Feeb-PR
Santander
Ana Botín tem a missão de modernizar Santander após a morte do pai

Ana Botín tem a missão de modernizar Santander após a morte do pai
Ana, filha de Emílio Botín, morto nesta semana após 30 anos na direção do banco espanhol, assume presidência 
Será difícil superar Emílio Botín, o último presidente do Santander. Sua morte inesperada no dia 9 de setembro suscitou tributos e homenagens nos quatro cantos da Espanha e no exterior. Ainda mais inesperada foi a nomeação de sua filha Ana Botín (foto) como nova diretora, aprovada pelo conselho da instituição menos de 24h depois da morte de Emílio. Ana será a quarta geração da família a presidir o Santander.

É de se estranhar o caminho de sucessão escolhido pela maior instituição financeira da zona do euro. Afinal, a família Botín detém apenas 1,5% das ações do banco. Ana, contudo, parece ter a experiência necessária para o cargo: seu pai a orientava para isso desde que ela começou a trabalhar no grupo, em 1988, e a integrar o conselho de administração um ano depois.

Sua precoce carreira começou com uma tentativa fracassada de criar um braço de investimento do Santander e de estabelecer presença na América Latina. Mas não demorou para recuperar a imagem: fez um bom trabalho ao dirigir a antiga subsidiária espanhola Banesto e, mais recentemente, à frente do Santander no Reino Unido. A gestão da filial tem sido elogiada; Ana prepara agora uma oferta pública inicial (IPO) - movimento que pode reafirmar a força da família Botín na condução do grupo.

A IPO ainda não tem previsão de data, mas a nova diretora do Santander foi bem-sucedida em melhorar o atendimento ao consumidor e a qualidade das operações na filial britânica, hoje responsável por um quinto de todo o faturamento do banco. Parece que ela também causou boa impressão em Londres. Diferentemente de seu pai, Ana Botín tem inglês impecável e aparência mais cosmopolita.

A chegada da nova Botín trará grandes mudanças às estratégias do Santander? No curto prazo, é pouco provável. Ana é membro do conselho administrativo há bastante tempo e, consequentemente, parte da velha guarda. À primeira vista, a estratégia atual do banco parece funcionar bem. O mercado prevê mais de um terço de aumento nos lucros, de acordo com estimativas da Reuters, e o preço das ações já subiu mais de 25% desde janeiro.

Ainda assim, o Santander tem grandes desafios pela frente em relação a algumas de suas 10 principais subsidiárias. O Brasil, responsável por um quinto dos lucros da instituição, caiu em recessão. Como o maior banco estrangeiro do país para operações no varejo, enfrenta dificuldades para comprar acionistas menores depois da queda de suas ações em relação às instituições financeiras brasileiras.

A filial nos Estados Unidos é outra que apresenta desafios. Reerguer o Banco Sovereign, comprado pelo Santander em 2010, está mais difícil que o esperado. O Federal Reserv (FED, o banco central dos Estados Unidos) rejeitou o plano de investimento do Santander, junto a outros dois bancos estrangeiros, forçando a instituição espanhola a reestruturar os controles internos. Banqueiros esperavam que o Santander injetasse capital para mitigar os problemas de crédito, mas até agora isso não aconteceu.

A sede espanhola também enfrenta problemas. Analistas dizem que o capital de risco do Santander, medida para equacionar o balanço financeiro da instituição, parece inferior ao definido por seus pares, se medido pelos Acordos de Basileia III. O banco resiste às pressões para levantar capital, sob o argumento de que o volume de seus negócios está no banco de varejo, relativamente estável. Outro tema espinhoso são os generosos dividendos do grupo - um atrativo para os investidores espanhóis. O Santander mantém um dividendo de 0,60 euro por ação, que no ano passado era 50% a mais do que o lucro por ação.

A esperança é que a entrada de Ana Botín modernize a administração do banco. Seu pai dirigiu a instituição com um robusto conselho de 15 membros dos quais muitos estão lá há mais de uma década. De qualquer forma, antes da morte de Emílio Botín, já estavam em curso algumas mudanças. No ano passado, o conselho apontou Javier Marin como diretor após a saída de Alfredo Saenz.

Ainda assim, investidores e executivos acreditam que a velha guarda defende bem os interesses dos acionistas. O Santander se esquivou com destreza dos problemas que levaram outras instituições financeiras à falência durante a crise. E muito se deve à percepção aguda de Emílio Botín para tomar as decisões certas nos momentos adequados, e gerenciar os riscos financeiros.

Apesar desse cenário, o Santander ainda precisa adotar práticas mais modernas de administração - e isso inclui refrescar o legado Botín na condução do grupo. Com a morte de Emílio Botín, restam apenas dois Botíns no corpo diretivo: Ana e seu irmão Javier. E espera-se que sejam os últimos. (Tradução de Livia Almendary) (Fonte: Estadão e The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados)